A distância que nos envolve


A quarentena abriu a visão de todos do nosso mercado sobre como produzir audiovisual em Portugal.

A produção de áudio online já é realidade em muitos países, mas aqui tínhamos muitas dúvidas quanto a eficácia desse formato. De forma geral se pensava que produzir remotamente não daria certo, que sem a presença física de todos as coisas não correriam bem. Mas as produções online, que se tornaram obrigatórias, conseguiram entregar qualidade e demonstraram ser um formato fiável e factível. Uma grande e boa novidade para nosso mercado.


O COVID-19 deixou bastante claro que o que ontem era o nosso processo padrão de produção pode mudar repentinamente para amanhã, seja por tendências ou necessidades obrigatórias. Deixou claro que é preciso estarmos prontos para se readaptar rapidamente, se reinventar sempre, afinal não sabemos quais as mudanças que ainda estão por vir e com que rapidez acontecerão. A obrigação de produzir remotamente trouxe uma nova realidade, e provavelmente esta continuará sendo o formato utilizado por muitos, por exemplo as agências que se encontram em centros menores e distante das grandes cidades como Lisboa e Porto.


Uma produção online tem outro ponto a ser salientado: os profissionais envolvidos como locutores, músicos e estúdio de som, na hora de executarem o seu trabalho, o fazem de acordo as suas concepções, desta forma acabam por incluir novos “inputs” à visão do criativo ou do realizador, e a partir dessa primeira entrega, naturalmente as peças sofrem as modificações se necessárias. Isso pode gerar um material final mais diverso pois tem uma maior entrega de todos os envolvidos. Por não se sentirem o real responsável pelo o que está sendo produzido, muitas vezes os profissionais fazem somente o solicitado dentro do estúdio, e assim acabam por não colaborar com o processo criativo. Quando estão por conta própria, o que esta sendo feito é de sua total responsabilidade, o que aumenta muito o grau de envolvimento com a produção. Eles vão entregar o que julgam ser o melhor segundo a visão e sua experiência. Não esquecendo que os profissionais que não investiam no seu preparo e em conhecimentos adjacentes as suas funções principais terão que investir, terão que ser mais preparados. Numa produção online um locutor tem que ter conhecimento de microfonação, de softwares de gravação e sua operação. Um engenheiro de som, por exemplo, numa produção de um spot de rádio sem a presença da agência, tem que ter a capacidade de dirigir os atores, e estar preparado para assumir essa responsabilidade é imprescindível. No formato online é necessária colaboração de todos, ultrapassando a esfera técnica e dando sua contribuição artística e criativa.


Muitas vezes pode-se produzir uma banda sonora fora do esperado por um realizador e este ficar simplesmente surpreendido positivamente. Podemos ouvir “Vocês não fizeram nada do que eu pedi, mas ficou muito melhor do que imaginei”. Isso não quer dizer nem que quem fez a banda sonora foi fantástico e nem que o realizador não sabia o que queria, simplesmente ali se teve a chance de experimentar outro caminho que deu certo. Obviamente poderia ter dado errado, mas o que importa mesmo é que o processo criativo foi o mais importante, com todos dando sua contribuição com certeza o projeto ganhou imenso.


Por falar em criatividade, a fase pós-quarentena terá mais do que nunca a criatividade como carro chefe. Estamos vendo as marcas sem saber como se comunicar, sem saber como adequar os seus produtos a nova realidade e vai ser preciso muita criatividade para criar novos projetos de sucesso. De uma forma geral a publicidade é positivista, e como falar positivamente com a essa crise mundial? Alguns criativos defendem inclusive que muitas marcas se comunicaram erradamente durante a quarentena com o discurso “tudo vai ficar bem, vai passar e tudo vai voltar logo ao normal”, pois a crise mundial está aí mostrando o contrário, mostrando que ainda temos um longo caminho até que a normalidade retorne. Ok, não devemos ser pessimistas, era uma boa mensagem, mas talvez fosse mais prudente comunicarmos: “se preparem”. Também seria uma bela mensagem, e foi sobre esse tema que comecei esse artigo, realmente temos que estar preparados para nos reinventar. Inclusive o reposicionamento que as marcas estão sendo obrigadas a fazer por causa do momento que atravessamos, é outro um legado do vírus. A pandemia obrigou-nos a pensar de forma diferente, a repensar o que já estava estabelecido e contribuiu para que todos nós enxergássemos que é preciso realmente pensar a frente, pensar no futuro e não só da comunicação, também na vida do planeta, nas relações interpessoais, na relação com o nosso tempo e o que fazemos com ele, a repensar nossas prioridades e a pensar realmente na nossa saúde.


Tem um trecho de uma canção que gosto muito que diz: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Se conseguimos nos adaptar em meio a uma pandemia, imagine se estivermos sempre a pensar a frente? Novas tendências e tecnologias surgem todos os dias, e temos que estar sincronizados com elas.

Aqui fica a também a lembrança e o respeito por todos que se foram vítimas desse mal que assolou o mundo. Realmente nos resta retirar o melhor, se possível, de tudo isso que passamos e que ainda estamos a passar, e nos tornarmos mais fortes e melhores em todos os sentidos.


Val de Andrade Sócio Fundador, Casa do Som


ESPAÇO DE

OPINIÃO