Outubro, 2020: pelas redes sociais mais duvidosas, espalham-se os primeiros relatos de ciganos na primeira pessoa a que me lembro de assistir em toda a minha vida. É uma espécie de telenovela espalhada pelas stories dos intervenientes em várias redes sociais (do instagram ao youtube ao whatsapp – um formato altamente copiável e interessante, na verdade, para as novelas tradicionais), em que uma mulher é insultada à vez pelo marido, pela mãe e pelo filho por alegadamente ter fugido com outro homem. O episódio, que começa com uma comunidade de ciganos a queimar toda a sua roupa em praça pública, envolve ameaças de morte e direito de resposta da própria, que tenta defender-se como pode.


Com menor ou maior espalhafato, isto aconteceu na comunidade cigana, mas podia acontecer em qualquer outra, em qualquer classe social. Mas a narrativa torna-se tanto ou mais inusitada nem que seja pelo simples facto de ser a única que parece existir – a par, claro, com aquela que todos ouvimos e bem conhecemos: a dos ciganos que roubam, a dos ciganos que traficam, a dos ciganos que vivem dos subsídios; a dos romenos-ciganos pedintes, malandros, que se auto mutilam para poderem pedir esmola à porta do supermercado, mas que é tudo mentira, apesar de aquela perna parecer mesmo, mesmo em estado grave; no fundo, a narrativa geral que parte da anedota para alimentar a ascensão de partidos como o Chega, que se movem à gasolina do ódio do povo.


Nada a ver: há muito tempo que uso o Facebook como barómetro social, mais do que como rede social propriamente dita. Sim, bem sei que hoje em dia tem uma demografia particularmente específica e nem por isso muito jovem. Nada trendy. Mas num cenário de população envelhecida (relevante para o número total de eleitores) e consciente daquela coisa da “bolha mediática pessoal” – uma espécie de aquário-esfera de amigos próximos em que as ideias partilhadas começam a ficar cada vez mais uniformes e homogéneas (corta para Trump e Bolsonaro no discurso da vitória, com toda a gente aos papéis a indagar-se como poderá ter isso acontecido), decidi começar a papar grupos: juntei-me voluntariamente e de forma cada vez mais compulsiva a centenas de grupos existentes no Facebook, de todo o tipo, sem qualquer critério.


Isto leva-me a ser membro de grupos tão díspares quanto o de Aquariofilia Portugal (PS: tive apenas sete peixinhos dourados na minha vida – morreram todos na mesma semana), o grupo de fãs de Harry Potter da casa de Ravenclaw (super específico, mas porque não?), uns dois ou três de uma miríade infinita de grupos onde homens e mulheres divorciados de meia idade se armam em atrevidos uns com uns outros, e cujo nome por pudor não direi (um chama-se Cinquentonas, vá :/ ), um de cada de adeptos fervorosos dos três grandes e salvo erro ainda um do Famalicão e, claro, 3 ou 4 páginas das concelhias do Chega, bem como um ou outro grupo encapotado de extrema-direita com nomes tão inconspícuos quanto “Grupo de Reformados do Facebook” e “Grupo de Apoio ao Juiz Carlos Alexandre” – os tais grupos onde se fazem passar as famigeradas fake news sem qualquer tipo de contraponto e onde os saudosos veteranos do Ultramar entram rapidamente em modo angry mob, juntando-se ao coro de perfis falsos, por terem mudado o nome da ponte sobre o Tejo. Para além disso, também estou em grupos de memes comunistas, de arte bizarra, publicidade retro, capas de álbuns com fotos constrangedoras e todo o tipo de coisas e aberrações diversas. O meu feed está destruído para sempre. Os anúncios baseados nos meus interesses têm agora imensa piada. Mas não vem nada disso para o caso.


Sempre votado ao silêncio – existo em tudo isto na qualidade de observador apenas – dou por mim a pensar de novo em ciganos. No facto de “cigano” ser usado como insulto e aceite como tal por uma gigantesca maioria, sem grande contestação; no facto de termos importado, e bem, um #BlackLivesMatter (because they fucking do) e, no entanto, convivermos sem problemas com a existência de um grupo étnico que, na sua totalidade e de forma totalitária, é visto em conjunto sob uma determinada perspetiva. E sobretudo no facto de existir uma gigantesca ausência de uma outra narrativa que compita com a que existe atualmente – ou que a equilibre pelo menos – e que nos tire de uma vez por todas de um sítio ideológico onde já estiveram no passado, só para dar um exemplo, judeus.


Na verdade, neste espírito de sair do nosso aquário, acho que nos fazem falta mais histórias de ciganos. Vá, sabemos a de Quaresma; mas nem por isso a de Carlos Miguel, o Secretário de Estado cigano. Ou a dos 3,8% de ciganos – segundo as estatísticas da Segurança Social e do Polígrafo – que vivem de facto do RSI. Baterão nas mulheres? Impedirão os filhos de ir à escola? Acamparão em baldios nos arredores dos arredores? E os restantes 96,2%? Terão vidas normais e honestas? Trabalharão em centros comerciais ou em call centres? Em repartições das finanças? Serão colegas nossos? Ou talvez membros do Governo? Aliás, estas contas estarão certas? Podemos imaginar; mas a verdade é que não sabemos. Nem tão pouco saberemos as histórias positivas dos ciganos que nunca terão a coragem de dizer que o são, sob o risco de perderem o emprego ou de serem votados ao ostracismo.


Mas porque raios estarei a falar de ciganos no contexto de ter sido convidado para jurado num festival de publicidade? Pergunta justa. De forma geral, excluindo os publicitários da equação, a publicidade é ignorável: é o que acontece quando vamos à casa de banho; é o que nos faz mudar de canal, ou não olhar para a barra lateral da direita quando entramos em qualquer site, ou colar autocolantes amarelos com palavras de ordem na nossa caixa de correio – aqui não! Mas, de vez em quando, quando há coragem e há ideais para além das tabelas de excel, temos nas mãos o poder de criar narrativas fortes, de mudar comportamentos, de lançar novos pontos de vista.


E depois há isto: numa altura em que partidos políticos com ideologias de ódio gastam impunemente rios e rios de dinheiro em media com campanhas publicitárias que dificilmente seriam premiáveis entre nós, ou que nunca chegarão às nossas esferas pessoais – e muito embora Trump seja de caras prémio eficácia de calibre máximo – talvez as causas fraturantes de que andamos à procura, aquelas que vamos buscar para dar uma missão às marcas e construir um case vencedor, devessem ser um bocadinho menos consensuais. Não que todas estas causas não sejam igualmente importantes, longe disso; mas talvez pudéssemos passar só com menos um sabonete que apela à igualdade de género, ou com menos uma marca de roupa que faz qualquer coisa pelo racismo, ou com menos uma lata de atum que tenta salvar os oceanos.


Em suma (e era aqui que queria chegar): acho que os ciganos precisavam de um rebranding. E de um bom case logo a seguir. Alguém conhece uma marca que alinhe nisto?



César Sousa Diretor Criativo da FunnyHow


Jurado na Categoria de Imprensa e Outdoor


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