Reflexões em tempos de pandemia


Quase seis meses se passaram desde o dia em que ‘a ficha caiu’ e fomos pra casa. Seis meses de opostos. Do tempo que passava ora depressa demais, e ora se arrastava. Da distância que aproximava. Eu nunca romantizei a pandemia; já disse isso por aqui. Não acredito que todos sairão pessoas melhores. Mas tivemos um tempo, antes considerado inconcebível, para que pudéssemos parar e pensar. Pensar naquilo que realmente faz sentido. O que achei mais interessante nessa oportunidade foi o fato de, ao nos isolarmos em casa, começarmos a enxergar melhor a rua. E assimilarmos as contradições do nosso país. Nunca vimos tantas ações sociais, das causas mais variadas. Causas essas que sempre estiveram ali, diante do nosso nariz, agora tampado por máscara. Enxergamos as pessoas, que passavam por invisíveis; e vozes, historicamente caladas, se fizeram ouvir em tempos de pandemia.


O mundo globalizado, crises ambientais, o digital indiscutivelmente mais imperativo e mudanças intensas nos cenários da comunicação, da economia política e da cultura.

Um país desgovernado, no sentido literal da palavra. Com base nisso, questionei muito o lugar da minha profissão. E entendo ser cada vez mais urgente discutir o papel social do Design. É histórico o poder do Design como agente de superação de crises, tanto sociais quanto econômicas. E nunca a maneira pela qual resolvemos problemas de grande complexidade foi tão importante para que as marcas deixassem claro a que vieram: focadas no ser humano, sempre.


Vivemos em uma realidade progressivamente mais imagética. Por isso, o designer deve ter consciência do tamanho da responsabilidade de colocar no mundo mais um projeto visual. É impossível dissociar um projeto dos valores e dos conceitos que o originaram, das ideologias por trás dele. O design nunca é neutro. Ao considerarmos que, na maioria das vezes, fazemos trabalhos para o outro, o design sempre terá fundamentalmente um papel social e político.


Esse tempo também me permitiu enxergar uma questão que as marcas para as quais trabalhamos devem sempre se fazer: “Qual o meu lugar no mundo”? E entendi que o meu é exercer e promover o poder do Design – o poder de conexão, de construir e materializar discursos. Compreender, cada vez mais, a transversalidade da profissão, a magia da interdisciplinaridade e a multiplicidade de um país de dimensões continentais e suas copiosas heranças culturais, influências, contrastes e contradições.


É preciso nos responsabilizarmos, ao ocuparmos lugares de privilégio, pela maneira como podemos contribuir para diminuir essas diferenças. Saio deste tempo (calma, a pandemia ainda não acabou) com a certeza de que, por meio do nosso ofício, somos capazes de construir um amanhã melhor e para todos.

Texto publicado no jornal Estado de Minas em 11 de outubro de 2020


Gustavo Greco CEO, Greco Design


Jurado na Categoria de Design


ESPAÇO DE

OPINIÃO