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ESPAÇO DE

OPINIÃO

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A 10 de Fevereiro de 1897, durante uma exibição da ópera Martha em Nova Iorque, o cantor que interpreta Tristam Micklefort agarra-se ao peito e rende-se ao chão do palco, mesmo no final da sua performance.

Julgando que o doloroso ataque cardíaco se tratava na verdade de um brilhante rasgo de acting, o público recompensa-o irrompendo numa estrondosa ovação enquanto as cortinas fecham. No caso de Armand Castelmary, nome de nascença Comte Armand de Castan, pela última vez.


Hoje, a nossa área também envolve uma certa performance em palco.


Não é que isso não se possa dizer também em relação a outras profissões, mas no fim de contas não há criatividade sem a capacidade de fazer de conta. De imaginar o que não existe para lhe podermos dar forma.


Mas também fazemos de conta de muitas outras formas.


Para ganhar um concurso, há quem faça de conta que o briefing do cliente está certo. E trabalhe nele, fazendo de conta que o que está a entregar é o melhor possível — dadas as circunstâncias.


Por outro lado, o cliente também tem, por vezes, de fazer de conta que a tarefa que está a passar faz sentido. Que concorda com decisões tomadas por superiores ou por comités de colegas, mesmo que seja só para manter a máquina a andar.


Para não levantar ondas, também há dos dois lados quem tenha de fazer de conta que concorda com feedbacks e argumentos sem cabimento. Nem que seja para não empatar mais e poder passar para outras coisas mais interessantes. Ou para poder chegar a casa a horas de jantar com a família. Há também as vezes em que se tem de fazer de conta que o mais importante no mundo é entregar a proposta. E manda-se a já clássica mensagem: “não esperem por mim”.


E há algumas malfadadas vezes, nem sempre e nem para todos, em que se faz de conta de que ninguém está a pisar a linha no que toca a valores éticos e pessoais.


Mas para conseguirmos vender uma boa ideia, também conseguimos fazer de conta que estamos a dar ao cliente o que ele pediu. E o cliente também consegue fazer de conta que sim, agora que tem argumentos para defender a ideia internamente.


Todas estas interpretações têm os seus quês. Umas são mais na área do drama. Outras lembram uma tragédia. Felizmente, a maior parte são, na verdade, uma comédia.


Mas todas têm algo em comum. Segurança.


Sempre que alguém entra numa destas performances, essa pessoa está apenas a assegurar a sua sobrevivência, seja de que forma for. Ou pelo menos está convencida disso.


É sempre mais fácil — e às vezes necessário — pertencer à multidão e fazermos de conta que também vemos umas magníficas vestes, embora todos saibamos onde é que o rei tem as suas verrugas. Mas também temos de considerar o que isto faz a longo prazo. Tanto para a nossa saúde mental, como para a sociedade e para a sustentabilidade desta área no geral.


Vale sempre a pena fazermos de conta que as coisas não têm de funcionar assim. Imaginar que podiam ser de outra maneira. Afinal, só fazendo de conta é que conseguimos dar forma a coisas novas.


E também podemos fazer de conta que eu não disse nada.


FIM.



Tiago Fragoso

Jurado na categoria de Imprensa e Outdoor



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